Por: Raffael Vasconcellos;
O tabuleiro político brasileiro para a corrida presidencial costuma ser desenhado com linhas bem definidas: de um lado, a máquina do lulismo; de outro, a força do espólio bolsonarista. Qualquer tentativa de romper essa dualidade costuma ser engolida pelo pragmatismo do eleitor ou pela falta de estrutura política.
No entanto, as movimentações mais recentes nas pesquisas acenderam um sinal de alerta nos quartéis-generais da política tradicional. Um nome que passou a última década operando nos bastidores, construindo uma militância digital fiel e uma máquina de comunicação eficiente, começou a ganhar espaço no debate nacional. Renan Santos, estrategista por trás do Movimento Brasil Livre (MBL) e agora pré-candidato pelo recém-criado partido Missão, passou a exigir atenção.
Se em meados do ano passado o dirigente partidário figurava nas últimas posições das intenções de voto, o cenário atual aponta para uma consolidação gradual de sua candidatura. A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg ilustra esse movimento: Renan ultrapassou a marca dos 5% das intenções de voto no primeiro turno, superando nomes de expressão nacional, como os governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), que aparecem na faixa dos 3%.
O crescimento torna-se ainda mais relevante diante da ausência de um nome de consenso para a chamada “Terceira Via”. Segundo levantamento do Instituto Real Time Big Data, ao serem questionados sobre quem representa uma alternativa à polarização política, 26% dos entrevistados apontaram espontaneamente Renan Santos. Na sequência aparecem Zema, com 21%, e Caiado, com 8%. Trata-se de um resultado expressivo para alguém que jamais disputou uma eleição ou ocupou um cargo executivo.
Quem é o homem por trás do Missão?
Para compreender o fenômeno, é necessário observar a trajetória de seu protagonista. Natural de São Paulo, criado no tradicional bairro da Mooca e atualmente com 42 anos, Renan Santos possui uma biografia marcada por pragmatismo e controvérsias. Filho de um advogado e de uma psicóloga, ingressou no curso de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco, mas deixou a graduação antes da conclusão para dedicar-se ao empreendedorismo e à reestruturação de empresas ao lado do pai.
Além da atuação política, também desenvolveu atividades na área cultural. É escritor, editor da revista impressa Valete e músico, atuando como guitarrista e vocalista da banda de rock Limão Rosa.
Sua entrada definitiva no debate público ocorreu em 2013, quando participou da organização das manifestações contra a PEC 37. A projeção nacional, porém, veio em 2014, com a fundação do MBL ao lado de nomes como Kim Kataguiri. Renan tornou-se o principal articulador dos bastidores das grandes mobilizações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, consolidando a reputação de estrategista habilidoso na mobilização de massas e no ativismo digital.
Após apoiar a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, o grupo rompeu com o governo já em 2019 e adotou uma postura de independência que culminou na defesa do voto nulo em 2022. O enfrentamento simultâneo às duas principais forças políticas do país levou o movimento a buscar uma estrutura institucional própria. Como resultado, nasceu o partido Missão, homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no final de 2025.
Qual é a base e qual é o teto de Renan Santos?
O avanço de Renan Santos nas pesquisas não ocorre por acaso; ele responde a tendências específicas do eleitorado brasileiro. O primeiro fator é sua forte conexão com a Geração Z e com os eleitores mais jovens. Dados do Datafolha indicam que, enquanto sua média de intenções de voto no eleitorado geral gira em torno de 3%, o percentual varia entre 6% e 10% entre jovens de 16 a 24 anos.
O domínio da linguagem das redes sociais e a comunicação direta, muitas vezes marcada pela ironia e pelo confronto, dialogam com um público que consome política por meio de cortes de podcasts, vídeos curtos e plataformas digitais.
O segundo elemento é o desgaste da polarização política. Na mesma pesquisa da Real Time Big Data, 48% dos brasileiros afirmaram estar cansados do confronto permanente entre lulismo e bolsonarismo. Renan procura capitalizar esse sentimento ao adotar um discurso centrado em propostas de segurança pública, reurbanização de áreas vulneráveis e uma agenda que combina elementos do liberalismo econômico com um viés mais pragmático de desenvolvimento.
O crescimento de sua presença digital também coincide com o desgaste de lideranças tradicionais da direita, envolvidas em disputas internas e episódios que contribuíram para fragmentar parte da base conservadora.
Contudo, os mesmos fatores que impulsionam sua ascensão também limitam seu potencial de crescimento. A retórica combativa e as polêmicas acumuladas ao longo de anos de ativismo digital geram elevados índices de rejeição. Embora apresente desempenho relevante em nichos específicos — chegando a alcançar 11% entre eleitores com renda superior a cinco salários mínimos —, Renan registra resultados mais modestos em simulações de segundo turno contra o presidente Lula quando comparado a outros nomes da direita, além de enfrentar índices significativos de rejeição e de votos brancos e nulos.
Renan Santos já demonstrou ser capaz de romper a barreira dos bastidores e desafiar nomes consolidados da política nacional sem controlar um governo estadual ou contar com uma estrutura partidária bilionária. O grande desafio de sua candidatura, entretanto, será transformar engajamento digital e apoio militante em viabilidade eleitoral ampla, convencendo o eleitor médio de que representa uma alternativa concreta de poder — e não apenas um canal de expressão para o descontentamento de parte da sociedade brasileira.



